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Tão longe, tão perto...

 

Augusta, famoso roteiro paulistano, guarda em si as contradições do mundo moderno.

 

Receita para uma rua peculiar.Uma reta, dois nomes, três mundos.Começa no centro da cidade de São Paulo e atende pelo nome de Augusta. Rua Augusta para os íntimos. Proponho ao leitor um passeio noturno por toda a extensão da rua, até o final da Avenida Europa. Prestemos atenção especial às calçadas, local onde a vida pública acontece.Quanta diferença! De início, a Senhora acolhedora de todos, sem discriminação. Restaurantes e bares, muitos com apresentação de bandas do circuito alternativo, convivem com prostitutas, cafetões, porteiros de boate e clientes que procuram, numa espécie de mundo paralelo, diversão e algum prazer. O espaço da transgressão seja através de um riff de guitarra, um porre, sexo pago ou nada disso, apenas diversão e boa conversa. Eis que, algumas quadras acima em direção à Av. Paulista, as boates de sexo fácil para quem paga começam a desaparecer para dar espaço aos apreciadores da sétima arte que, não raramente, conversam e trocam impressões do último filme visto no Espaço Unibanco, importante cinema da cidade que faz da Rua Augusta ponto de encontro entre cinéfilos. Muitos dos freqüentadores das boates e do circuito alternativo dividem as mesas dos bares e restaurantes com amigos que acabaram de sair da última seção. Nesse ponto ainda há interação entre as várias Augustas. Cruzemos então a Av. Paulista, mais conhecido endereço de São Paulo, e andemos algumas quadras. Entraremos agora em outro mundo pela mesma rua. A quantidade de bares diminui consideravelmente, o bairro agora é Jardins, com moradores de classe média alta que, em geral, pouco freqüentam a região central de onde saímos. Ainda há oferta de restaurantes, mas a conta já é mais cara, as ruas mais vazias, as pessoas mais reservadas. Lojas de grife começam a aparecer, muitas vitrines, poucas pessoas. A impressão é que a vida noturna na Augusta dos Jardins pulsa diferente. Pulsa pra dentro. Dentro dos apartamentos, dentro dos restaurantes e bares que já não têm as mesas na calçada. A rua virou o caminho para o encontro, não mais o local do encontro.Chegamos até o cruzamento com a Avenida Brasil. E, por ironia, entramos em um Brasil que poucos conhecem. A rua é a mesma, mas já não é mais Augusta. Agora é Europa. Avenida Europa. A mesma rua rebatizada como se fosse embalada para presente. Aqui é o local onde a classe média alta que pouco liga para o Centro sonha em chegar. Até os carros na rua diminuem. Os porteiros das boates são substituídos por pessoas de traje parecido, também com rádio comunicador, mas a diferença está na função. Ao passo que no Centro eles pedem para você entrar, lá, na Europa, eles não permitem que você chegue perto.Não vigiam boates nem apartamentos classe média alta. Zelam por casas de altíssimo padrão que têm como vizinha, por exemplo, uma concessionária da marca italiana de automóveis Lamborghini, aquela em que os carros chegam a custar 1,5 milhão de reais. Vida noturna? Não, não há. Aqui as calçadas são desertos. Aqui o espaço público inexiste, substituído que foi pelo medo da classe alta intramuros. A rua vira local a ser vigiado, triste, sem graça, silencioso.Uma prisão a céu aberto que o transforma em suspeito por andar a pé muito próximo da residência guardada a sete chaves e muitos seguranças. Final de passeio antes que chamem a polícia. Começamos no centro das pessoas na calçada e terminamos nas calçadas vazias de pessoas confortavelmente enclausuradas. Contradições de um Brasil que são muitos e muito mais próximos do que os muros fazem supor.Afinal, somos todos vizinhos, estamos todos na mesma rua.

 

Escrito por José Alves às 12h47
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O que poderia ser

 

Sexta-feira. Boteco na praça da República. Oito e meia da manhã.

 

Uma pinga.

Um pingado.

Lado a lado.

 

O homem descansado

e o trapo que sorria.

Ele sempre acordado,

ela nunca dormia.

 

Em manhã fria,

doses de ironia,

última da noite,

primeiro do dia.

 

Lá ficaram,

batom borrado,

terno alinhado.

 

Ele atrasado.

Ela entendia.

Ele entediado.

Ela trazia.

 

A dama da noite em seu último trago,

bálsamo de flor e perfume.

 

O dono do alarme, cheio de ciúme,

faz o que lhe resta.

Encerra a festa,

franze a testa,

começa o expediente.

 

Tudo o que não gosta,

é de cruzar com essa gente.

Lembra-se de repente,

que de pingado em pingado,

sonha-se errado.

 

De tanto esperar.

Engole requentado.

Escrito por José Alves às 01h24
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Pedido

 

Não vá, Vera.

Espera.

Fica um pouco mais.

Atrase o relógio.

Diminua o compasso.

Dê um passo atrás.

Tira o enredo da avenida.

Quem pede é minha lágrima contida.

Fica, Vera.

E canta minha vida.

 

Canta o futuro.

O teu presente.

Uma rosa que não existe.

Amarela, bela, guardada.

Semente não plantada.

Espera, vai!

Não custa nada.

 

O que é mais um dia?

Então, Vera,

adia, prolonga, delonga, dilata.

Não maltrata quem te ama.

Vera, você é chama.

Meu coração, lata.

Brilha quente com você ainda presente.

Dividido quando parte.

A metade boa vai embora.

E agora?

Vera, ainda não é hora.

Uma chance e eu te mostro.

Você verá.

 

Vera,

não vá.

 



Escrito por José Alves às 17h07
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Voltar ao tempo

 

 

Esperado desespero contido.

Sentido, ressentido.

 

Para visita anunciada,

beijo frio, lágrima quente.

A cabeça informa.

O corpo mente.

 

Incoerente.

Transpira,

inspira,

e acalma.

 

E, se há calma,

respira.

Isso eu nunca vi, depois disso tudo,

como quem não quer nada,

sorri.

 

Volta.

De triste palhaço encostado,

final trágico.

Finge o ser menino,

mágico.

 

Cheio de truque,

troca o trinco, esconde a chave.

Tranca dor e não abre.

Quando pergunto,

diz que não sabe.

 

Não é ele.

Não viu.

Não sentiu, nem ressentiu.

O que espera não é dor nem desespero.

“Não conheço esse senhor,

nem quero conhecê-lo!”



Escrito por José Alves às 14h42
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Escrito por José Alves às 00h07
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Tão perto

 

Usei teu ombro, amiga.

Em tua história de vida,

me vi estampado.

Afogado.

Em lágrima que não é minha.

 

Dei-te meu ombro amigo.

Quero dizer e não digo.

É tua boca que fala.

Não para, reclama.

Chora.

 

Chama.

Na minha boca que arde.

Cansada, salgada.

A lágrima amparada.

Pelo beijo calculado.

 

Ao lado.

De onde deverias ser beijada...



Escrito por José Alves às 03h35
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Homenagem ao tempo amigo

  

O tempo. Esse revolucionário. O maior de todos. À medida que transforma minha vida diária, traz de presente a lembrança, a saudade. Ao nascer, tenho a vida inteira pela frente. A vida inteira? De que é feita toda uma vida, senão da incessante visita dos segundos? Meu maior companheiro, o único que presencia calado a tudo o que faço, o que fiz e o que farei; desde a alegria embriagadora ao lado de milhares de pessoas até o momento solitário que ninguém nunca soube. O mais fiel dos cúmplices. É por isso que não gosto de relógios. São todos mentirosos. Transformam todos os segundos em iguais. O exato instante em que escrevo essas palavras coincide com três ponteiros que todos os dias, nesse momento calculado, estão e estarão no mesmo lugar. Sem passado, sem futuro, só o presente interessa à essa máquina racional inventada pela ciência. O meu tempo é outro. É emocional. O meu presente vem carregado de passado. Não sou como os ponteiros sugerem. De ontem para hoje, meu cabelo cresceu, meus olhos se abriram um pouco mais, meu rosto mudou, meu futuro diminuiu, meu passado aumentou; os erros que cometi, alguns consertei, outros piorei, muitos esqueci; algumas amizades se fortaleceram, outras se perderam, poucas se eternizaram. E essas, meu amado tempo homenageado, vencem qualquer barreira da física e estarão sempre conosco. Nós todos juntos até o último dia de minha vida, até a última cinza queimada, continuará mesmo após o nada, transformado em saudade. Quanto ao relógio, que se dane, não o quero comigo, é incapaz de uma simples homenagem, parar os ponteiros por breve instante quando eu fechar meus olhos pela última vez. Continuará trabalhando como se nada tivesse acontecido. Passará para outro pulso e novamente esquecerá que o tempo é feito de alma.      

 



Escrito por José Alves às 01h52
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Antes que seja tarde...

 

Elogio.

É lógico

que quero.

Mas em vida, aqui.

Não no necrotério.



Escrito por José Alves às 18h32
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Poeminhas para George, o rei da selva.

 

Como ajudar um país bombardeado

 

Primeiro destrua,

vidas.

Depois reconstrua,

Avenidas.

 

Onde Deus não se envolve,

o empreiteiro resolve.

 

 

Seção de achados e perdidos

 

O serviço de alto-falante anuncia:

 

“Atenção Presidente George W. Bush,

favor entrar em contato com a sua consciência,

imediatamente.”

 

 

Acertei no alvo...errado

 

O mundo gira,

caro George.

Talvez por isso,

erraste a mira.

A miopia do nobre,

só acerta bomba em pobre.

 

 

Trecho de uma música do Gonzaguinha cantada por Bush

 

“ Não dá mais pra segurar,

  explode o coração”

 



Escrito por José Alves às 18h23
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Conselhos de um nutricionista

 

 

Essencial a repercussão do Programa Fome Zero, idealizado pelo Governo Federal. Não se concebe um país onde alguém fraqueje as pernas, não de emoção, mas de fome. Saco vazio não para em pé, o ditado fala por si próprio. Há quem argumente que isso é preguiça, falta de iniciativa, coisa de brasileiro folgado, que o governo não tem que ficar dando comida para um bando de mortos de fome, que no tempo dos militares isso não acontecia. Nesse ponto vocês têm razão. Realmente, na época dos militares esses programas não aconteciam. Sugiro a vocês uma alimentação à base de água com farinha por um mês; aguardo ansiosamente a divulgação do resultado dessa experiência. Mas depois voltem a se alimentar, não sou revanchista.                                                                                                                                                         

Para os mesmos pragmáticos de plantão, trago uma má notícia. Você, falo com um por um a partir de agora, também precisa de alimento, está subnutrido. Tudo bem que o almoço é regular, o café da tarde é dispensado por opção, diferente do café da manhã, e o jantar é a refeição mais tranqüila do dia. E isso acontece todo dia. Tudo bem que o corpo anda forte e saudável como de costume. Mas e a alma? O que você me diz? Não havia pensado nisso? Era de se esperar. Não sabe como alimentar sua alma? Também já imaginava. Mais uma prova que faz muito tempo que ela não se farta. Tá bom, não farei como você, que pouco se importa com os milhões de famintos espalhados por aí. Eu o ajudarei. Darei a receita para uma alma bem gordinha e saudável (ainda bem que aqui, a ditadura da dieta não virou moda). O alimento é único e gratuito. Chama-se beleza. No começo não é tão fácil assim, requer adaptação. Alguns pontos importantes que precisam ser observados para uma alma bem alimentada. Lembra daquela vitrine que te mostrava a oitava maravilha do mundo? Esqueça. Não faça essa cara, tem que esquecer. Treine, transfira toda essa voluptuosa observação para um parque, por exemplo. Tudo bem, eu sei que não dá pra comprar o parque. Outro ponto, não enxergue a beleza só nas coisas que podem ser exclusivamente suas em troca de dinheiro, treine a contemplação coletiva. Tente também não pegar afeição somente por objetos inanimados, busque o afeto de quem se movimenta, por exemplo, seres humanos e animais.                                 

Tenha absoluta certeza que, passando por essa fase, sua opinião sobre a saúde do corpo que não é seu, mudará. Porque? Simples. Conseguindo enxergar a beleza coletiva que a rua tem, também verá a tristeza coletiva que a invade em forma de miséria e fome. Mas nesse momento você também já se afeiçoou pelos humanos, portanto, conseguiu curar a miopia que só sumia em frente das vitrines. Conseqüência inevitável. Concordarás que algo precisa ser feito rapidamente, e o mais urgente é pensar nessas pessoas, para o bem dos nossos olhos, de nossa alma e do estômago deles. Uma alma alimentada com comida boa e nutritiva pode muito. Diferente dessas de hoje em dia, que muito pouco querem fazer pelo próximo, pois só se alimentam de fast-food. Mais fast do que food.



Escrito por José Alves às 02h27
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Centro de (Des)valorização da Vida Moderna, bom dia...

 

 

Um homem à beira do suicídio resolve ligar para pedir ajuda ao Centro de (Des)valorização da Vida Moderna, o CDVM. Queria uma palavra amiga, foi atendido por uma máquina.

-         Muito obrigado por recorrer aos nossos serviços. Se o motivo do seu suicídio for financeiro, disque 1. Amor, disque 2. Incompatibilidade com o pragmatismo da vida moderna, disque 3. Se você for japonês ou sueco, disque 4. Caso esteja sentindo uma angústia enorme e ainda não detectou o motivo, disque 9 e aguarde um atendente.

Mas o desesperado homem sabia qual era o motivo da sua vida valer tão pouco. Discou 2. Pensou que seria encaminhado para alguém especializado em questões sentimentais. Doce ilusão. A máquina novamente.

-         Se quiser se matar com veneno, disque 1. Com um tiro, disque 2. Abrir o gás, disque 3. Cortar os pulsos, disque 4. Se jogar em frente ao metrô, disque 5. Caso não saiba ainda como pretende se matar, disque 9.

Ele havia pensado em enforcamento. Só que essa opção não estava disponível no menu. Discou 9 e aguardou contato. O primeiro ser humano, enfim, falou com o suicida.

-         Pois não, em que posso ajudá-lo?

-         Eu quero me enforcar, mas não tem no menu.

Veio a explicação.

-         Senhor, o índice de procura por enforcamento está muito baixo nos dias de hoje. Está fora de moda. Resolvemos tirar das opções. Estávamos pagando salário à toa para os atendentes desse segmento. Ninguém mais procura ajuda para essa categoria de suicídio.

O homem, em desespero extremo pelo pouco caso com a sua vida, ameaça.

-         Olha, eu já estou com a corda em mãos. Vou cometer uma loucura!

Quando então houve a sugestão.

-         Senhor, regras são regras. Caso resolva mudar de idéia e se matar como todos se matam hoje em dia, nos procure novamente. Mas, se insistir em morrer como morriam os seus avós, com a corda no pescoço, só nos resta lhe desejar uma boa viagem.

E completou.

-         Temos convênio com a funerária Boa Morte. Antes do enforcamento, por favor, avise seus parentes que se eles falarem que o suicida conversou conosco antes da morte anunciada, ganham 30% de desconto no caixão. E parcela-se em 3 vezes sem juros. Mas morra logo, pois a promoção é por tempo limitado.Obrigado pela procura e volte sempre, se não for em corpo, que seja em espírito.

E desligaram.

Escrito por José Alves às 18h16
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Fim de jogo

 

Mais uma partida emocionante no jogo da vida. As equipes se posicionam. De um lado, Beatriz, hábil defensora, sempre se antecipa na jogada, ótima visão periférica, uma grande estrategista, é o cérebro do time. Do outro, João, atacante insinuante, driblador convicto, cheio de malícia, de gingado, pensa pouco, é verdade, mas não desiste nunca. Dessa vez o jogo é em casa, já que João andou jogando muitas vezes na casa do vizinho, ou melhor, da vizinha.

E começa o jogo...

João chega em casa, cambaleia as pernas tortas inspiradas em Garrincha, parte em direção à porta. Passa por um, passa por dois e abre a maçaneta. Quanta habilidade, a sutileza dos movimentos na hora em que o barulho é o inimigo. Mas Beatriz não se deixa enganar. Bem plantada na sala, ela costuma jogar na sobra. É sempre a última a dar combate. Talvez, por conhecer melhor o oponente do que as outras zagueiras, não se deixa levar pelos ludibriosos dribles de João. Não havia mais beleza em seus movimentos.

A única diferença desse jogo para o outro, mais racional, é que não há tempo determinado por ninguém, a não ser pelos dois jogadores. E Beatriz jogou todas as dores para cima do atacante. Pela primeira vez, João percebeu que seus dribles nada poderiam fazer contra uma defensora machucada que não vai mais para a dividida. Dividida estava ela, perdida entre dois tempos muito distintos. No primeiro, um jogo bonito, cheio de técnica, os dois jogavam no mesmo time e faziam uma tabelinha digna de Coutinho e Pelé. A cada dia um novo espetáculo, jogavam por música. Beatriz fazia lançamentos de quarenta jardas, lindos, cheios de magia para a bola morrer no peito de João, mais precisamente do lado esquerdo.A bola pedia abrigo ali, no coração do atacante. Até que João começou a vestir outros uniformes. Saia de campo sem avisar, ia para o vestiário, tomava um banho e se arrumava para atuar em outros estádios. Os erros de passe começaram a aumentar, o entrosamento diminuiu e Beatriz decretou o intervalo da partida. Uma pausa para o descanso, a reflexão, talvez pensar uma tática melhor para os dois. Ela resolve voltar para o segundo tempo, mas agora é visível que os dois não jogam mais no mesmo time. Dizem que um zagueiro, quando humilhado, costuma marcar o atacante mais de perto. E foi isso que Beatriz fez. A magia do espetáculo foi embora. Virou um jogo truncado, cheio de faltas, de cartões amarelos, de contestações na marcação das jogadas. Como jogavam em times diferentes, começaram a se provocar a toda hora, para tentar desestabilizar o adversário. Um jogo chato, sem técnica, digno de um 0X0. Beatriz se lembrava com saudades dos dribles e lançamentos que cansou de fazer. Sabia que podia jogar mais do que aquilo, mas ultimamente havia se contentado somente em marcar, como uma zagueira caneluda que nunca fora. De líbero, zagueiro que costuma subir ao ataque para ajudar o companheiro, havia se tornado a mulher da sobra, que só dá pancada e chega na jogada quando muito pouco tem a ser feito. Seu passe começou a desvalorizar. Ela, sistematicamente, ouvia da sua consciência que sua carreira não estava acabando como os críticos insistiam em afirmar. E João chegou, hoje, aos 48 minutos do segundo tempo tentando desempatar um jogo que já havia terminado. Beatriz já havia apitado o final da competição. Cansou da peleja. Deixou com que João a driblasse com as pernas de Garrincha, arrumou as malas e partiu. A partida de Beatriz foi sem prorrogação, sem pênaltis. Somente um melancólico estádio vazio, mais silencioso que o Maracanã na final da copa de 50.

Escrito por José Alves às 05h01
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Lula com café. Prato indigesto. 

 

(texto com continuação)

 

Política do café-com-leite. Forma encontrada pelos estados mais poderosos do Brasil, São Paulo e Minas Gerais, para se perpetuarem no poder. Ora um presidente de Minas, candidato do leite, ora um de São Paulo, candidato do café. Troca de gentilezas que durou um certo tempo na política brasileira. O café, aliás, foi quem trouxe a riqueza para a região paulista no começo do século passado, riqueza essa que até hoje se perpetua no estado mais próspero do Brasil. Com o advento da modernidade, veio o casamento indissolúvel: o trabalho gerado pela riqueza abundante, com suas sedes empresariais, e o cafezinho de escritório. Santo cafezinho. O álibi perfeito para aquela conversa mais demorada, e melhor, uma conversa remunerada. Está com sono? Fuja para o café. O chefe saiu? Café. O café em seu copo acabou? Outro copinho de plástico. E cheio, por favor. Lógico, tudo isso recheado com conversas dos mais variados temas, dentre eles, sobre os companheiros e companheiras de trabalho:

            - O Bira, por exemplo, um puxa-saco. Nunca veio aqui tomar um copinho que seja. Não sai da cadeira por nada. Vai chegar o dia em que ele vai mijar numa comadre, enquanto digita uma planilha. Todos riem. Já a secretária, a Neuza, que beleza. Adoro quando ela dá aquela abaixadela pra pegar o copinho. O gritinho de “ui” que ela dá quando segura o copinho quente. E o melhor, o biquinho que ela faz com os lábios quando dá uma assopradinha pra esfriar o café. Todos concordam. Viva a Neuza! É lá, em torno do confidente líquido negro, que os sonhadores aparecem.                                                                                           

O café nos diz claramente quem são as pessoas que valem a pena um convite para uma mesa de bar ao final do expediente. Porque o Bira, por exemplo, conformado com o seu pragmatismo diário, seus hábitos robotizados, nunca seria capaz de abandonar os seus afazeres para entrar no mundo mágico, na segunda realidade do escritório, e se juntar à rodinha de comentários, suposições e porque não dizer, fofoca, que o hábito traz junto a si. Nessas horas, damos asas à imaginação. Comentamos cenas que não vimos, mas pensamos ver, elogiamos a Neuza, criticamos o Bira, enfim, gastamos nosso precioso tempo alimentando a imaginação de sonhos. O cafezinho é o brinquedo do escritório.     

Sempre acreditei que o poder de imaginação está intrinsecamente ligado ao potencial criativo de quem sonha. E, quanto mais treinamos nossa mente, melhor ficamos. Deve ser por isso que o Bira nunca conseguiu uma promoção; falta imaginação, falta café ao rapaz. Eu acreditava, até ler o jornal dessa semana, que a rodinha de café, patrimônio cultural brasileiro, nunca fosse acabar.



Escrito por José Alves às 02h09
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(CONTINUAÇÃO)

Mas, prepare-se, você leitor que pretende utilizar os serviços do funcionalismo público. O governo federal anunciou que para poder se enquadrar na Lei de Responsabilidade Fiscal, o cafezinho será cortado. Sim, o produto que já foi a locomotiva do Brasil lá nos idos tempos do café-com-leite, será banido das repartições públicas.

Estamos economizando até no cafezinho! 

Quando me deparei com essa notícia, logo me veio à cabeça um fato ocorrido numa dessas eleições que trabalhei como mesário. Uma senhora simpática entra na sala e serve um cafezinho para os trabalhadores, eu inclusive, que acordaram cedo em um dia que ninguém faz nada que canse o corpo, a não ser perder vinte segundos para votar. Eu, mais que depressa aceitei a oferta que o governo estava me dando. Um copinho de café, daqueles clássicos, pequenos e de plástico. Exatamente como os de escritório. Qual não foi a minha surpresa quando a mesma senhora me diz: - Filho, me devolve o copinho que eu tenho que lavar. Como assim lavar?  Lógico que não devolvi, joguei no lixo o mais rápido que pude. Lavar copinho de plástico para economizar já é demais para o bom senso. Agora entendi tudo. Começaram no copinho e terminaram no café, lógico, um dia isso iria acontecer, como não pensei nisso antes? E aconteceu, é o fim do café, triste fim.                                                                   

É o fim das fofocas, das risadas, da criatividade aguçada. Acabou tudo. Comecemos a notar as expressões de tédio que consumirão os pobres funcionários, pássaros com asas cortadas. A gostosa da repartição perderá a auto-estima, ninguém mais comentará dela na rodinha, o chefe não precisará mais dos serviços do puxa-saco espião que lhe contava quem é que o criticava. Começará a desconfiar de todo mundo. A Dona Ivete, uma senhora gorda e baixinha que fez o café por trinta anos será demitida. Nunca mais receberá os abraços calorosos dos seus fãs, que diariamente elogiavam seu cafezinho. É o fim do contato humano, o governo está desumanizando suas repartições. O café na repartição pública é necessário, pense nisso, Lula. Se preferir, te convido para um café e conversamos melhor sobre o assunto.

Termino com uma confissão: o que mais me deixa triste é a saudade que terei do biquinho nos lábios da secretária Neuza e o ódio dessa cara de satisfação que o Bira anda fazendo ultimamente.

             



Escrito por José Alves às 02h08
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Reminiscências

 

Bons tempos aqueles das flores furtadas,

colhidas num jardim da casa ao lado.

Regávamos a essência de nossas vidas.

O nosso amor roubado.

 

Em nossa aventura diária,

a flor anterior, morria,

e sorria,

a nova rosa que chegava.

 

A nossa vida diária, hoje vive num diário,

dos tempos da casa ao lado.

Dias lembrados que devolvo ao mundo.

Com um suspiro aliviado.



Escrito por José Alves às 19h12
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